Fisioterapia durante processo de reabilitação

A fisioterapia após transplante ganhou destaque recentemente com a recuperação de Fausto Silva, o Faustão. Depois de passar por transplantes de coração, fígado e rins, o apresentador contou que sua rotina inclui fisioterapia, musculação e tai chi chuan.

O relato, divulgado em reportagem da CNN Brasil , ajuda a chamar atenção para uma etapa que costuma ser menos visível: a reabilitação depois da cirurgia.

Nesse período, alguns pacientes podem apresentar perda de força, redução do condicionamento e dificuldade para retomar atividades que antes faziam parte da rotina.

No caso de Faustão, a recuperação muscular, a caminhada e a retomada da independência ganharam destaque. A experiência ajuda a levantar uma questão mais ampla: qual é o papel da fisioterapia depois de um transplante?

O que acontece com o corpo?

A fisioterapia pode participar desse processo desde a avaliação funcional. Primeiro, o profissional identifica quais capacidades foram afetadas e quais atividades representam maior dificuldade para o paciente.

Entre os aspectos avaliados estão força muscular, mobilidade, equilíbrio, tolerância ao esforço e capacidade respiratória.

1 Avaliação

O fisioterapeuta identifica limitações, capacidades preservadas e necessidades daquele momento.

2 Retomada do movimento

No início, podem ser trabalhadas mudanças de posição, ficar em pé e pequenas caminhadas.

3 Progressão

Com a evolução, entram exercícios de força, equilíbrio, resistência e condicionamento.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada no PubMed analisou o treinamento físico em adultos submetidos a transplantes de órgãos sólidos. Entre os resultados, os pesquisadores observaram melhora na capacidade de exercício e na força do quadríceps entre participantes que realizaram treinamento.

Vale observar: os próprios autores apontam limitações metodológicas em parte dos estudos. Portanto, os resultados não significam que todos os pacientes terão a mesma resposta ao exercício.

Da força à vida cotidiana

Na reabilitação, recuperar capacidade física ganha sentido quando a melhora aparece também fora da sessão de fisioterapia.

Força

Fortalecer as pernas pode facilitar movimentos do cotidiano, como levantar-se de uma cadeira, caminhar e vencer pequenos desníveis.

Equilíbrio

O treino de equilíbrio pode contribuir para uma caminhada mais estável e segura, especialmente durante a retomada das atividades diárias.

Resistência

O ganho de condicionamento pode ajudar o paciente a permanecer ativo por mais tempo e realizar tarefas com menor sensação de esforço.

Depois da alta, algumas pessoas ainda podem apresentar cansaço, fraqueza, falta de ar ou alterações no equilíbrio. Nesse contexto, um programa progressivo pode contribuir para recuperar autonomia e confiança.

Cada transplante exige uma reabilitação individualizada

A experiência de Faustão chama atenção para o assunto, mas não deve ser usada como modelo para todos os pacientes transplantados.

Isso porque o planejamento depende de diferentes fatores.

✓ Tipo de transplante
✓ Idade
✓ Tempo de internação
✓ Condições clínicas
✓ Medicamentos utilizados
✓ Resposta ao esforço

Além disso, um posicionamento científico da Canadian Society of Transplantation e da CAN-RESTORE recomenda a inclusão do exercício físico nas fases pré e pós-transplante, considerando avaliação clínica, segurança e individualização.

Reabilitação supervisionada não é o mesmo que se exercitar por conta própria. Durante a recuperação, dor intensa, falta de ar desproporcional, tontura, palpitações, febre ou piora súbita do estado geral devem ser comunicadas à equipe de saúde.

A recuperação envolve uma equipe multiprofissional

A fisioterapia é uma parte do cuidado, mas não atua sozinha. Dependendo das necessidades de cada paciente, diferentes profissionais podem participar do acompanhamento.

Medicina na equipe multiprofissional de recuperação após transplante
Enfermagem na equipe multiprofissional de recuperação após transplante
Fisioterapia na equipe multiprofissional de recuperação após transplante
Nutrição na equipe multiprofissional de recuperação após transplante
Psicologia na equipe multiprofissional de recuperação após transplante
Terapia Ocupacional na equipe multiprofissional de recuperação após transplante

Dessa forma, a recuperação pode ser acompanhada de maneira mais ampla, considerando aspectos físicos, emocionais, nutricionais e sociais.

Além disso, o apoio familiar pode contribuir para a continuidade dos cuidados e para a adaptação da rotina em casa.

Brasil realizou quase 10 mil transplantes de órgãos sólidos em 2025

O tema ganha ainda mais relevância quando olhamos para além dos casos conhecidos do público.

9.938 transplantes de órgãos sólidos em 2025

Segundo o Ministério da Saúde , o número correspondeu a 46,5 procedimentos por milhão de habitantes.

Por trás de cada procedimento existe uma trajetória que continua depois da cirurgia. Em muitos casos, a recuperação pode envolver diferentes necessidades e profissionais ao longo do tempo.

O que esse cenário mostra sobre a Fisioterapia?

O que esse cenário mostra sobre a Fisioterapia?

Para quem pensa em cursar Fisioterapia, a reabilitação pós-transplante mostra uma das possibilidades de atuação em situações clínicas de maior complexidade.

Nesse contexto, o profissional precisa compreender fisiologia, movimento humano, exercício terapêutico, avaliação funcional e resposta ao esforço. Ao mesmo tempo, precisa observar como o paciente evolui e adaptar as condutas ao longo do processo.

Profa. Patrícia Salerno de Almeida Picanço, fisioterapeuta e docente da São Camilo

“O transplante não representa o fim do tratamento, mas o início de uma nova etapa. A fisioterapia tem papel decisivo nesse processo, ajudando o paciente a recuperar força, mobilidade, resistência e independência.”

Profa. Patrícia Salerno de Almeida Picanço

Casos como o de Faustão ajudam a tornar esse trabalho mais conhecido. No cotidiano profissional, porém, a recuperação costuma acontecer passo a passo e de forma individualizada.

Nesse percurso, o fisioterapeuta acompanha limites e avanços para que cada etapa da reabilitação seja compatível com as necessidades e as condições daquele paciente.