A rotina intensa da graduação em Medicina costuma ser marcada por longas horas de estudo, pressão emocional, privação de sono e pouco tempo livre. No meio dessa rotina, tomar um remédio por conta própria acaba parecendo uma solução simples e até inofensiva.

O problema é que esse hábito, muitas vezes tratado como algo normal dentro do ambiente universitário, pode trazer consequências importantes para a saúde. Uma pesquisa de autoria de Izadora Downar Bakalarczyk, Ana Clara Almeida Ribeiro, Mariana Almeida Ribeiro, Maykon Jhuly Martins de Paiva, Savia Denise Silva Carlotto Herrera e Mateus Silva Santos, publicada na revista O Mundo da Saúde, revelou que a automedicação entre estudantes de medicina acontece em níveis preocupantes e expõe futuros profissionais a situações que vão muito além de um simples alívio momentâneo dos sintomas.

O estudo analisou o comportamento de 216 estudantes de medicina de uma universidade do norte do Brasil e mostrou que 94,4% dos participantes já haviam comprado medicamentos sem prescrição médica. Boa parte deles relatou utilizar remédios com frequência, principalmente analgésicos e anti-inflamatórios.

Mais do que apresentar números, a pesquisa revelou um cenário preocupante: estudantes de medicina, em diferentes fases da graduação, adotam práticas de automedicação que podem trazer riscos importantes para a própria saúde. O dado chama a atenção porque evidencia que o acesso gradual ao conhecimento sobre medicamentos nem sempre é suficiente para evitar comportamentos potencialmente prejudiciais.

O que a pesquisa revelou

Os resultados chamaram atenção dos pesquisadores principalmente pela frequência da automedicação entre os estudantes avaliados. A pesquisa identificou que essa prática é bastante comum entre estudantes de Medicina, uma vez que a maioria dos participantes já havia utilizado medicamentos sem prescrição médica em algum momento da graduação. Os medicamentos mais consumidos foram analgésicos e anti-inflamatórios, geralmente utilizados para aliviar dores, cansaço e sintomas considerados leves do dia a dia.

Entre os principais motivos apontados para a automedicação estão a familiaridade com os medicamentos, a falta de tempo para procurar atendimento médico e a confiança no conhecimento adquirido durante a graduação. Muitos estudantes afirmaram acreditar possuir conhecimento suficiente para utilizar medicamentos por conta própria e costumavam repetir tratamentos já realizados anteriormente, baseando-se na própria experiência ou em orientações informais recebidas no ambiente universitário.

Apesar dessa percepção de segurança, o estudo revelou que apenas 12,5% dos participantes afirmaram conhecer todos os possíveis efeitos adversos relacionados aos medicamentos utilizados. O dado demonstra que a confiança no uso dessas substâncias nem sempre está acompanhada de um conhecimento completo sobre os riscos envolvidos.

Os pesquisadores concluíram que a automedicação permanece elevada mesmo entre futuros profissionais da saúde, reforçando a importância de ações educativas voltadas ao uso racional e seguro de medicamentos durante a formação acadêmica.

Quando o conhecimento gera uma falsa sensação de segurança

À primeira vista, pode parecer que estudar Medicina é suficiente para evitar comportamentos de risco relacionados à saúde. Porém, os dados mostram justamente o contrário.

Só que essa confiança pode ser enganosa. Mesmo medicamentos considerados “comuns” apresentam contraindicações, efeitos adversos e riscos importantes quando utilizados sem acompanhamento adequado.

Outro dado que chama a atenção é que 80,6% dos participantes afirmaram buscar orientação com farmacêuticos ou balconistas antes da compra dos medicamentos. Embora a orientação farmacêutica tenha papel importante no cuidado em saúde, ela não substitui uma avaliação médica individualizada, principalmente em situações recorrentes ou persistentes.

A automedicação nem sempre parece perigosa

Grande parte das pessoas associa os riscos da automedicação apenas ao uso de medicamentos controlados. No entanto, o estudo mostra que os remédios mais utilizados pelos estudantes foram justamente os considerados mais “simples” e acessíveis.

Esse é um dos pontos mais delicados apresentados. Afinal, quando um medicamento faz parte da rotina de tantas pessoas, é comum que ele seja visto como inofensivo.

Mas o uso frequente e indiscriminado dessas substâncias pode provocar problemas gástricos, alterações renais, lesões hepáticas e até mascarar doenças importantes, dificultando diagnósticos precoces.

Segundo os pesquisadores, anti-inflamatórios não esteroidais estão entre os medicamentos associados a danos relevantes ao organismo, incluindo lesão hepática induzida por fármacos.

Outro risco silencioso está no adiamento da busca por ajuda médica. Em muitos casos, o medicamento reduz temporariamente os sintomas e cria a sensação de que o problema foi resolvido. Enquanto isso, a condição original pode continuar evoluindo sem diagnóstico adequado.

A pressão da vida universitária também pesa

A pesquisa deixa claro que a automedicação não acontece isoladamente. Ela está diretamente ligada ao estilo de vida e às exigências da formação médica.

Fatores como a carga horária intensa fazem com que muitos estudantes priorizem soluções rápidas para conseguir manter a rotina funcionando. Nesse contexto, procurar atendimento médico acaba sendo deixado para depois.

O debate sobre uso racional de medicamentos precisa avançar.

Em conclusão, o estudo reforça a necessidade de desenvolver estratégias educativas voltadas ao uso racional de medicamentos durante a formação médica.

Os autores destacam que enfrentar a automedicação exige ações educativas contínuas ao longo da graduação de Medicina. Entre as recomendações do estudo estão a inserção de conteúdos estruturados sobre o uso racional de medicamentos durante o curso, o desenvolvimento de campanhas institucionais de conscientização sobre os riscos da automedicação, o estímulo à farmacovigilância acadêmica, com incentivo à notificação e discussão de reações adversas, além da promoção de reflexões éticas sobre o papel do estudante também como paciente. Essas iniciativas podem contribuir para a formação de profissionais mais conscientes e preparados para tomar decisões seguras em relação ao uso de medicamentos.

Sobre a publicação

Vale destacar que o estudo foi publicado na revista O Mundo da Saúde, periódico científico do Centro Universitário São Camilo voltado à divulgação de pesquisas e debates nas áreas da saúde. A publicação tem papel importante na disseminação do conhecimento acadêmico e, para quem deseja saber mais sobre sua trajetória e propósito, o artigo O Mundo da Saúde: conheça o periódico científico do Centro Universitário São Camilo” apresenta detalhes sobre a história e a relevância da revista. Além de publicar pesquisas científicas, o periódico busca aproximar a produção acadêmica da sociedade por meio de conteúdos baseados em evidências.

Acesse o artigo na íntegra:

https://revistamundodasaude.emnuvens.com.br/mundodasaude/article/view/2014

Como citar o estudo

Bakalarczyk, I. D.; Ribeiro, A. C. A.; Ribeiro, M. A.; Paiva, M. J. M.; Herrera, S. D. S. C.; Santos, M. S. Entre o saber e o risco: prevalência e padrões de automedicação entre estudantes de medicina no norte do Brasil. O Mundo da Saúde, v. 50, 2026.

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