
Viver mais já é uma realidade para uma parcela crescente da população brasileira. Ao mesmo tempo, envelhecer com autonomia, participação social e qualidade de vida passou a ocupar um espaço cada vez mais importante nas discussões sobre saúde.
A geriatra Elaine Biffi, professora do curso de Medicina do Centro Universitário São Camilo , comenta como o perfil das pessoas idosas vem se transformando e quais fatores contribuem para um envelhecimento mais saudável.
O envelhecimento é um processo natural, mas fatores como atividade física, alimentação, acompanhamento de saúde, vínculos sociais e condições de vida influenciam a maneira como cada pessoa atravessa essa fase.
Brasil envelhece: o que os dados mostram
O envelhecimento da população brasileira já aparece de forma clara nos dados demográficos.
Segundo o Censo Demográfico 2022, o Brasil tinha 32,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais. Esse grupo representava 15,8% da população total.
Em 2010, por comparação, pessoas nessa faixa etária correspondiam a 10,8% da população. Portanto, em pouco mais de uma década, o peso relativo da população idosa cresceu de maneira significativa.
Além disso, projeções do IBGE indicam que essa transformação deve continuar nas próximas décadas. Em 2070, aproximadamente 37,8% da população brasileira poderá ter 60 anos ou mais.
Dessa forma, envelhecimento populacional deixa de ser apenas uma questão individual e passa a influenciar também políticas públicas, organização das cidades, mercado de trabalho e serviços de saúde.
O que significa envelhecer de forma saudável?
O aumento da expectativa de vida trouxe uma nova pergunta para a saúde: não apenas quantos anos uma pessoa pode viver, mas como esses anos serão vividos.
A Organização Mundial da Saúde define o envelhecimento saudável a partir da manutenção da capacidade funcional, ou seja, das condições que permitem à pessoa realizar atividades importantes para sua vida e bem-estar.
Manter capacidade para se deslocar e realizar atividades do cotidiano favorece autonomia.
Acompanhamento preventivo e controle adequado de doenças crônicas ajudam a preservar funcionalidade.
Bem-estar emocional e acompanhamento adequado também fazem parte do processo de envelhecimento.
Relações familiares, amizades, atividades culturais e participação comunitária contribuem para qualidade de vida.
“O envelhecimento é um processo fisiológico. Os desgastes acontecem e os órgãos têm uma relativa diminuição de função e, desde que seja mantido um equilíbrio, se vive com qualidade.”
Profa. Elaine Biffi — geriatra e docente de MedicinaUm novo perfil de pessoa idosa exige novas respostas da sociedade
À medida que mais pessoas chegam à terceira idade mantendo autonomia e participação ativa na sociedade, também mudam as necessidades relacionadas a saúde, trabalho, lazer, mobilidade e convivência.
Nesse contexto, a ideia de que envelhecer significa necessariamente perder independência vem sendo substituída por uma visão mais ampla e individualizada.
Acompanhamento de saúde ao longo da vida ajuda a identificar fatores de risco antes que eles comprometam a funcionalidade.
Movimento regular contribui para força, equilíbrio, mobilidade e prevenção de quedas.
Manter capacidade de escolha e participação nas decisões relacionadas à própria vida é parte importante do envelhecimento saudável.
Diferentes profissionais podem atuar em conjunto diante de necessidades clínicas, funcionais e sociais.
Além disso, a maior longevidade traz desafios coletivos. Serviços de saúde precisam se preparar para uma população com maior prevalência de doenças crônicas, necessidade de reabilitação, cuidados continuados e acompanhamento multidisciplinar.
Por outro lado, envelhecer não deve ser associado apenas a doença. Muitas pessoas permanecem ativas, trabalham, praticam exercícios, estudam, viajam e mantêm intensa participação familiar e social.
2021–2030: a Década do Envelhecimento Saudável
A transformação do perfil etário da população não acontece apenas no Brasil. O envelhecimento demográfico é uma tendência mundial.
Por isso, a Organização das Nações Unidas proclamou o período de 2021 a 2030 como a Década do Envelhecimento Saudável, iniciativa liderada pela Organização Mundial da Saúde.
A proposta mobiliza governos, sociedade civil, profissionais, universidades e setor privado em torno de ações capazes de melhorar a vida das pessoas idosas, de suas famílias e comunidades.
Entre os principais objetivos estão combater o idadismo, desenvolver comunidades mais adequadas às necessidades das pessoas idosas, oferecer cuidado integrado e ampliar o acesso a cuidados de longa duração quando necessários.
Assim, o debate sobre longevidade deixa de se concentrar apenas em acrescentar anos à vida. O desafio passa a ser criar condições para que esses anos também sejam vividos com saúde, autonomia e participação.
Longevidade também exige uma nova forma de pensar o cuidado
O crescimento da população idosa reforça a importância de profissionais preparados para compreender o envelhecimento em toda a sua complexidade.
Além de tratar doenças, o cuidado pode envolver prevenção, manutenção da funcionalidade, orientação às famílias, reabilitação e promoção da autonomia.
Envelhecer é um processo natural e diverso. Por isso, não existe um único perfil de pessoa idosa nem uma única maneira de atravessar essa etapa da vida.
Com acompanhamento adequado, prevenção e condições favoráveis de vida, a maior longevidade pode ser acompanhada também de mais autonomia, participação e qualidade de vida.