À medida que o ano chega ao fim, a internet se enche de promessas tentadoras. Surgem dietas milagrosas, desafios de 30 dias e estratégias que prometem transformar o corpo aos “45 do segundo tempo”. Dezembro mal começou e, com ele, vem a corrida para caber em roupas guardadas, para se sentir melhor nas fotos de fim de ano e para alcançar o padrão estético reforçado pelas redes sociais.
Neste período, a “trend” mais popular promete a eliminação de até 10 quilos antes do Natal. Vídeos, grupos e hashtags viralizam mostrando antes e depois impressionantes. Em comunidades online, especialmente no site Grupos WhatsApp, proliferam canais com nomes como “Operação Verão”, “Clube Magras e Felizes” e “Emagreça em 30 dias”.
Mas será que isso é possível? E, principalmente, é seguro?
Para responder a essas perguntas, conversamos com as nutricionistas Daniela Cierro, consultora técnica da Asbran, e Beatriz Tanuta, docente do curso de Nutrição do Centro Universitário São Camilo.
É possível perder 10 quilos em um mês?
Segundo as especialistas, do ponto de vista biológico, algumas pessoas até conseguem, mas isso não significa que seja uma estratégia recomendada.
“Tecnicamente sim, mas não é recomendado, seguro ou sustentável na maioria dos casos, exceto sob supervisão médica rigorosa”, explica Cierro.
Perder tanto peso tão rápido geralmente está associado a algum quadro clínico ou a um nível extremo de restrição.
“Para atingir isso de propósito, seria preciso cortar drasticamente a ingestão calórica, quase como entrar em um estado de privação semelhante ao de monges, ficando com pouquíssima energia para as atividades básicas”, afirma a professora Beatriz.
Além disso, emagrecimentos acelerados dependem de déficits energéticos muito altos combinados com exercícios intensos e intervenções individualizadas — um combo que pode trazer sérios prejuízos à saúde.
De maneira geral, o emagrecimento considerado saudável é bem mais modesto.
Cierro lembra que “instituições internacionais recomendam de 0,5 a 1 kg por semana (2 a 4 kg por mês) como seguro e sustentável”.
Por que dietas muito restritivas não funcionam?
De acordo com Beatriz, a ciência da nutrição é clara: dietas extremamente restritivas não se sustentam no longo prazo.
“Elas até podem gerar perda de peso inicial, mas o fim da dieta é inevitável, e, com o retorno aos antigos hábitos, o peso perdido volta”, explica.
Além disso, muitos planos radicais estimulam comportamentos prejudiciais, como compulsão alimentar.
Um estudo recente da Faculdade de Medicina da USP mostra que métodos como o jejum intermitente, quando mal orientados, podem intensificar o desejo por comida e desregular o comportamento alimentar.
As restrições extremas também provocam desequilíbrios nutricionais.
“Os carboidratos, por exemplo, devem representar entre 50% e 60% das calorias diárias”, lembra a especialista. Cortar grupos alimentares inteiros significa reduzir vitaminas, minerais, fibras e até água, elementos essenciais para o funcionamento do organismo.
Quais riscos esse tipo de dieta pode trazer?
Daniela Cierro lista algumas consequências comuns das dietas radicais:
- Perda de massa muscular: até 30% do peso perdido pode vir de músculos, reduzindo disposição, força e saúde metabólica.
- Ritmo metabólico mais lento: favorecendo o famoso efeito sanfona.
- Deficiências nutricionais: falta de vitaminas, minerais e eletrólitos essenciais.
- Problemas hepáticos e biliares: como esteatose hepática e cálculos.
- Riscos cardiovasculares: alterações eletrolíticas podem desencadear arritmias.
Esses efeitos, somados à frustração e ansiedade, tornam esse modelo de emagrecimento ainda menos indicado.
Como emagrecer de forma saudável?
Para Beatriz, o primeiro passo é abandonar a lógica da “dieta com prazo de validade”.
“Emagrecimento sustentável exige mudança de estilo de vida, não apenas um plano temporário”, afirma.
Isso inclui:
- déficit calórico leve e planejado, sem radicalismos;
- alimentação variada, rica em nutrientes;
- redução de processados e ultraprocessados;
- ingestão adequada de proteínas;
- hidratação diária (cerca de 35 ml por quilo de peso);
- sono de qualidade;
- atenção à saúde mental.
Outro ponto essencial é considerar o comportamento alimentar, já que emoções e rotinas influenciam diretamente as escolhas.
“Só um nutricionista pode avaliar a real necessidade de cada pessoa e construir um plano individual”, reforça Beatriz.
O que realmente importa em dezembro?
Mais do que seguir tendências, a recomendação das especialistas é olhar para a saúde com responsabilidade.
Resultados rápidos podem até parecer atrativos, mas geralmente vêm acompanhados de riscos elevados e baixa durabilidade.
Enquanto isso, a construção de hábitos saudáveis transforma o corpo e a relação com a comida de forma real e contínua — mesmo quando dezembro chega com pressa.
Fonte: Reportagem original de Layla Shasta, Revista VEJA Saúde
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