No ambiente digital atual, a comunicação vai muito além das palavras. Inicialmente, emojis surgiram apenas como formas práticas de expressar emoções. No entanto, entre adolescentes, eles passaram a representar códigos internos que, em certos contextos, podem indicar discursos violentos ou alinhamento a grupos extremistas. Além disso, muitos desses símbolos aparecem como forma de driblar filtros das redes sociais.
De acordo com a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2024, 93% dos jovens entre 9 e 17 anos acessam a internet. Além disso, 76% utiliza as redes sociais como principal meio de comunicação. Dessa forma, torna-se fundamental que pais e responsáveis entendam como esses adolescentes transmitem mensagens nas plataformas digitais.
A psicóloga Cynthia Cassoni, coordenadora da pós-graduação em Psicologia Hospitalar do Centro Universitário São Camilo (CUSC), explica que a linguagem digital jovem mudou com o tempo. Segundo ela, abreviações e ausência de pontuação se tornaram comuns. Além disso, emojis passaram a criar uma linguagem cifrada que substitui palavras e estabelece identidade de grupo.
“Essa linguagem cifrada pode expressar desde afinidade com um grupo até ideologias violentas. Além disso, muitos adolescentes criam esses códigos para afastar adultos e evitar supervisão”, afirma Cynthia.
Incel e red pill: como esses movimentos influenciam o uso dos emojis
Para compreender o uso de determinados símbolos, é necessário entender os movimentos que ganharam espaço entre alguns adolescentes. Primeiro, o termo incel veio de “involuntary celibate”. Com o tempo, passou a descrever grupos predominantemente masculinos marcados por frustrações afetivas e ideologias misóginas.
Por outro lado, o movimento red pill surgiu da metáfora presente no filme Matrix. Na história, a pílula vermelha revela a verdade, enquanto a azul mantém a ilusão. Consequentemente, grupos extremistas apropriaram esse conceito para sustentar discursos machistas e agressivos.
Cynthia destaca que adolescentes usam emojis para indicar alinhamento a esses movimentos. Além disso, fazem isso como tentativa de evitar bloqueios, denúncias ou monitoramento.
“Essa barreira linguística simboliza uma crise mais profunda: a falta de diálogo e a busca por pertencimento em comunidades tóxicas”, explica.
8 emojis e seus significados entre adolescentes
Para facilitar a compreensão, veja abaixo os símbolos mais usados e seus possíveis sentidos:
💊 (Pílula)
Associa-se ao conceito de “tomar a pílula vermelha” e aderir ao movimento red pill.
🫘 (Feijão)
Usado como forma de identificação entre grupos incel.
🗿 (Moai)
Simboliza frieza emocional e força extrema — características valorizadas nesses grupos. Além disso, sugere resistência ou ausência de sentimentos.
🍷 (Taça de vinho)
Indica superioridade e celebrações de supostas “vitórias” sobre mulheres.
🍆 (Berinjela)
Além do sentido sexual comum, pode intensificar a objetificação feminina.
💣 (Bomba)
Associa-se à radicalização e à ideia de violência iminente. Inclusive, aparece na série Adolescência, da Netflix, como símbolo de pertencimento a grupos extremistas.
🧨 (Dinamite)
Expressa raiva intensa ou discursos extremistas.
🔪 (Faca)
Usado em ameaças veladas ou como parte de brincadeiras violentas.
Como essa linguagem impacta o desenvolvimento dos adolescentes?
O uso constante de símbolos pode parecer prático. Entretanto, substituir palavras por emojis traz consequências importantes:
- Perda de oportunidades de ampliar o vocabulário;
- Redução da capacidade de expressar emoções complexas;
- Dificuldade em organizar pensamentos longos;
- Empobrecimento da comunicação;
- Impulsividade e imediatismo;
- Normalização de comportamentos tóxicos e violentos.
Além disso, Cynthia destaca que os impactos variam conforme o contexto e o equilíbrio no uso das plataformas digitais.
Como pais e responsáveis podem agir?
Ao notarem que adolescentes usam emojis com significados violentos, algumas atitudes podem ajudar. Primeiramente, o ideal é criar um ambiente seguro para conversas. Depois disso, vale perguntar sobre gírias e símbolos de forma leve e curiosa.
Além disso, recomenda-se:
- Explicar riscos sem alarmismo;
- Observar mudanças bruscas de humor após o uso de redes;
- Monitorar a repetição de emojis suspeitos;
- Evitar invadir celulares sem permissão, pois isso rompe a confiança.
Consequentemente, a combinação entre diálogo, acolhimento e vigilância respeitosa torna-se essencial para evitar que adolescentes se aproximem de comunidades perigosas.
Fontes: Radar Proteste por Jennifer de Carvalho.
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