A possibilidade de realizar uma avaliação por ultrassom durante a própria consulta na Unidade Básica de Saúde (UBS) está mais perto de fazer parte da rotina da Atenção Primária brasileira. Em setembro de 2026, o Ministério da Saúde anunciou uma ata de preços para futura aquisição de 500 ultrassons portáteis de bolso, com investimento previsto de R$ 12,58 milhões.

Os aparelhos devem chegar a ações em UBS de 23 estados e do Distrito Federal. Entre outras possibilidades, o Ministério prevê seu uso em avaliações abdominais, obstétricas, pré-natais e renais, na identificação de lesões, sangramentos internos e derrame pleural e no apoio a procedimentos guiados por imagem.

Na prática, a novidade chama atenção não apenas pelo tamanho do aparelho. Acima de tudo, ela muda o lugar em que o profissional pode obter determinadas informações clínicas: mais perto do paciente e durante o próprio atendimento.

POCUS: o ultrassom ao lado do paciente

O uso do ultrassom no próprio local de atendimento é conhecido pela sigla POCUS, de Point-of-Care Ultrasound. Em termos simples, a técnica permite que um profissional capacitado faça uma avaliação ultrassonográfica focada para responder a uma questão clínica específica.

A dinâmica é diferente de solicitar um exame, aguardar seu agendamento e só depois retomar a investigação. Em determinadas situações, a imagem passa a integrar a avaliação feita naquele momento e oferece novas informações para o raciocínio clínico.

Ao analisar o papel dessa tecnologia na Atenção Primária, o Prof. Dr. Guilherme Oberto Rodrigues, docente do Centro Universitário São Camilo, destaca um cuidado essencial:

“O ultrassom portátil não substitui o ultrassom convencional realizado por especialistas, mas é uma ferramenta complementar que responde a perguntas clínicas específicas no momento do atendimento.”

Prof. Dr. Guilherme Oberto Rodrigues,

Além de contribuir para a discussão sobre o uso do POCUS na Atenção Primária, o Prof. Dr. Guilherme Oberto Rodrigues também aproxima ciência e prática em sua produção acadêmica. O docente é autor de livros nas áreas de imagem e estética, incluindo uma obra voltada à estética, apresentada na matéria Docente da São Camilo lança livro que une ciência e prática na estética.

Ou seja, o POCUS acrescenta informação à avaliação clínica sem transformar um equipamento de bolso em substituto de toda a estrutura de diagnóstico por imagem. A proposta é usar a tecnologia de maneira focada e dentro dos limites de sua aplicação.

Da consulta à imagem: o que muda na UBS

Imagine uma pessoa que procura a UBS com dor abdominal, falta de ar ou uma queixa urinária. Dependendo do caso, o profissional pode precisar encaminhá-la para outro serviço a fim de realizar um exame de imagem.

Com o POCUS disponível e havendo indicação para seu uso, um profissional capacitado pode obter informações adicionais ainda durante a consulta. Dessa forma, o recurso pode ajudar a definir se o paciente precisa de encaminhamento, se determinada hipótese diagnóstica ganha ou perde força ou qual deve ser o próximo passo da investigação.

A WONCA Europe aponta que o POCUS na Atenção Primária tem potencial para aumentar a precisão diagnóstica. Além disso, a organização identifica possibilidades de redução de deslocamentos, tempos de espera e determinados encaminhamentos para outros níveis de atenção.

Um exemplo dessa transformação aparece no próprio Brasil. A partir das referências reunidas pelo Prof. Guilherme, a experiência de Iguaí, na Bahia, mostra a utilização do recurso em uma UBS de área rural. A experiência registrou redução do tempo de espera para exames de imagem e menor necessidade de deslocamento da população atendida.

Onde um aparelho tão pequeno pode fazer diferença?

As possibilidades são variadas e dependem da situação clínica. Consensos e estudos reunidos pelo Prof. Guilherme apontam aplicações como confirmação de gravidez intrauterina precoce, investigação de colecistite e cálculos na vesícula, hidronefrose, retenção urinária, derrame pleural, suspeita de trombose venosa profunda, abscessos e localização de corpos estranhos subcutâneos.

Da mesma forma, o Ministério da Saúde cita avaliações abdominais, obstétricas, pré-natais e renais, além da avaliação de lesões musculares e do apoio a punções e outros procedimentos guiados por imagem. (

Nesse contexto, a combinação entre mobilidade e obtenção de informações em tempo real ajuda a explicar o interesse pela tecnologia. Para populações que vivem longe de centros que concentram serviços especializados, essa característica pode ter uma importância ainda maior.

O aparelho cabe no bolso. A formação, não.

A facilidade de transportar um ultrassom não torna seu uso simples. O profissional precisa saber obter e interpretar as imagens, além de reconhecer os limites da técnica. Por isso, a capacitação é um ponto central para a expansão segura do POCUS.

Como alerta o Prof. Dr. Guilherme Oberto Rodrigues:

“O treinamento adequado não é negociável. O POCUS é um exame altamente dependente do operador, e na mão de profissionais sem capacitação estruturada, os riscos de subdiagnóstico, diagnóstico equivocado, superdiagnóstico e sobretratamento são reais.”

A formação profissional também aparece como prioridade internacional. A European Federation of Societies for Ultrasound in Medicine and Biology (EFSUMB), por exemplo, desenvolveu um currículo básico para POCUS na Atenção Primária a partir de um processo Delphi com 95 médicos de 28 países, chegando a 40 exames diagnósticos considerados essenciais.

Assim, incorporar a tecnologia às UBS exige mais do que disponibilizar aparelhos: envolve treinamento, protocolos e integração à rotina dos serviços. Essa perspectiva está alinhada à formação promovida pelo Centro Universitário São Camilo, que compreende a tecnologia como recurso a serviço do cuidado.

O próximo passo acontece dentro das UBS

A chegada dos aparelhos abre uma nova etapa para o diagnóstico por imagem na Atenção Básica. No entanto, seu impacto dependerá de como a tecnologia será incorporada à rotina dos serviços.

A partir das experiências reunidas pelo Prof. Guilherme, formação continuada e colaboração entre a Medicina de Família e organizações dedicadas ao treinamento em ultrassom são pontos importantes nesse processo.

Afinal, mais do que ter um ultrassom no bolso, é preciso saber quando e como utilizá-lo para apoiar decisões clínicas mais bem fundamentadas.

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