Ser chamado de herói é uma forma de reconhecimento. Mas será que esse título ajuda uma família a enfrentar a perda de alguém querido? Durante a pandemia de covid-19, médicos receberam homenagens por sua dedicação no combate à doença. Entre aqueles que perderam a vida, muitos deixaram familiares que precisaram conviver com a ausência e com o reconhecimento público de sua trajetória.

Uma pesquisa com participação do professor Alfredo Simonetti, docente de psiquiatria do Centro Universitário São Camilo, investigou essa relação e encontrou respostas que ajudam a compreender o luto para além das homenagens.

O estudo, intitulado “O luto de familiares de médicos que morreram no combate à covid-19: um estudo qualitativo“, foi publicado em setembro de 2026 na Revista Sociedade Científica e tem participação dos seguintes pesquisadores: Alfredo Simonetti, Cristiane Corsini Prizanteli, Danielle Rosado Giopato, Henrique Moschetta Ferreira, Maria Helena Pereira Franco, Natália Neves, Luiza Pigula SIlva Mattar e Lilian Cláudia Ulian Junqueira

A investigação buscou compreender como a imagem do médico-herói influencia a experiência de familiares que perderam pessoas próximas durante a crise sanitária.

O que a pesquisa descobriu sobre o luto das famílias?

Para compreender essa experiência, os pesquisadores entrevistaram seis familiares de médicos que morreram após contrair covid-19 durante o trabalho. Participaram duas irmãs, uma esposa, uma filha, um filho e um sobrinho.

Os pesquisadores utilizaram entrevistas semiestruturadas, permitindo que cada participante compartilhasse suas experiências. Assim, conseguiram investigar sentimentos e lembranças que os números, isoladamente, não conseguiriam explicar.

A análise identificou dez vivências relacionadas ao luto. Entre elas estão o início do processo, a imagem do médico-herói, a fama momentânea, as lembranças da contaminação e a raiva.

Um dos resultados mais significativos envolve a maneira como os familiares recordavam a trajetória profissional dos médicos.

Segundo o estudo, saber que a pessoa falecida exercia uma profissão da qual gostava tinha maior importância para os participantes do que o reconhecimento público como herói.

A pesquisa também identificou que a imagem de heroísmo influencia os significados atribuídos à perda, mas não modifica a estrutura do luto.

Esse resultado revela um aspecto importante da memória familiar. Antes de representar uma profissão, cada médico tinha uma história construída ao lado de pessoas que conheciam seus hábitos, suas escolhas e seus afetos.

Quando a homenagem pública encontra a dor particular

A pandemia colocou os profissionais da saúde no centro das atenções. Médicos, enfermeiros e outros trabalhadores enfrentaram jornadas intensas, exposição ao vírus e situações de grande pressão.

Nesse período, a sociedade passou a utilizar frequentemente a palavra herói para reconhecer sua dedicação.

Para os familiares entrevistados, porém, essa representação não eliminava os sentimentos difíceis. O reconhecimento público fazia parte da experiência, mas não substituía o enfrentamento da perda.

A pesquisa também identificou sentimentos de raiva e lembranças dolorosas das circunstâncias da contaminação. Por isso, as homenagens podiam conviver com emoções diferentes, incluindo orgulho, tristeza e inconformismo.

Enquanto colegas e pacientes recordavam a contribuição profissional dos médicos, os familiares enfrentavam mudanças concretas na rotina. Eram relações interrompidas, planos que não aconteceriam e uma ausência presente em situações cotidianas.

Essas experiências mostram por que o luto público e o familiar não ocupam o mesmo lugar. Embora possam acontecer simultaneamente, cada um envolve vínculos e significados próprios.

O estudo também convida à reflexão sobre a imagem construída em torno dos profissionais da saúde. Afinal, reconhecer sua dedicação não significa ignorar suas necessidades humanas ou o sofrimento daqueles que conviviam com eles.

As perdas que marcaram a pandemia

O número de médicos que morreram durante a crise sanitária ajuda a compreender a importância dessa investigação.

Segundo levantamento do Conselho Federal de Medicina citado na reportagem sobre a pesquisa, 844 médicos morreram em decorrência da covid-19 no Brasil.

O dado dimensiona o impacto da pandemia sobre a categoria. Ao mesmo tempo, representa famílias que enfrentaram despedidas em circunstâncias excepcionais.

Além da perda, muitas pessoas precisaram lidar com restrições a velórios e dificuldades de contato presencial. As medidas sanitárias também alteraram rituais tradicionais de despedida.

Essas condições trouxeram desafios adicionais a quem tentava compreender a morte de alguém próximo. Em muitos casos, os familiares não tiveram a oportunidade de se despedir como desejavam.

Ao ouvir pessoas diretamente afetadas, a pesquisa amplia o conhecimento sobre as consequências emocionais da pandemia. Dessa maneira, contribui para que essas histórias não permaneçam restritas aos registros estatísticos.

O que o estudo acrescenta à compreensão do luto?

A pesquisa reúne experiências de seis familiares e adota uma abordagem qualitativa. Portanto, seus resultados não representam necessariamente todas as famílias de médicos que morreram durante a pandemia.

Sua contribuição está na análise aprofundada dos relatos e nas questões que eles revelam.

Entre os aspectos identificados está a importância dos vínculos pessoais. A maneira como alguém enfrenta a morte de um familiar envolve sua história, a relação construída e as circunstâncias da perda.

Para profissionais que atuam com saúde mental, esses resultados reforçam a necessidade de uma escuta atenta. Cada pessoa precisa encontrar espaço para expressar seus sentimentos, sem expectativas sobre como deveria reagir.

A investigação também ajuda a compreender os limites do reconhecimento público. Embora as homenagens preservem a memória da atuação profissional, os familiares carregam lembranças que pertencem à convivência pessoal.

São histórias que incluem momentos compartilhados, escolhas, afetos e experiências que permanecem presentes depois da despedida.

Ao explorar essas diferenças, o estudo contribui para ampliar a compreensão do luto. Também oferece elementos para práticas de acolhimento mais atentas às necessidades individuais.

Leia a pesquisa completa: https://journal.scientificsociety.net/index.php/sobre/article/view/1451