As hepatites virais continuam sendo um importante problema de saúde pública em todo o mundo. Muitas pessoas convivem com essas infecções durante anos sem apresentar qualquer sintoma, o que torna a campanha Julho Amarelo e o diagnóstico precoce uma das principais ferramentas para evitar complicações graves, como cirrose e câncer de fígado.

Durante o mês de julho, a campanha nacional conscientiza a população sobre as hepatites virais. Especialistas reforçam que informação, vacinação e testagem são fundamentais para reduzir a transmissão dessas doenças.

“Grande parte das pessoas infectadas não sente absolutamente nada nas fases iniciais da doença. Justamente por isso, realizar os testes quando houver indicação e manter a vacinação em dia são atitudes que podem mudar completamente o prognóstico de uma pessoa”, explica o médico infectologista Bernardo Porto Maia, responsável pelo Ambulatório de Infectologia da Clínica-escola Promove São Camilo.

Médico infectologista Bernardo Porto Maia, responsável pelo Ambulatório de Infectologia do Promove.

O que são hepatites virais?

As hepatites virais são doenças infecciosas causadas por vírus que acometem o fígado. Dependendo do agente causador, podem provocar apenas uma infecção aguda e autolimitada ou evoluir para formas crônicas, capazes de comprometer progressivamente o funcionamento do órgão.

Segundo o Prof. Bernardo Porto Maia, docente de medicina do Centro Universitário São Camilo, existem cinco vírus principais responsáveis por hepatites em seres humanos: A, B, C, D e E. No Brasil, as hepatites A, B e C concentram praticamente toda a relevância epidemiológica e representam a maior parte dos casos acompanhados pelos serviços de saúde.

Embora todas provoquem inflamação hepática, cada uma apresenta formas distintas de transmissão, prevenção, evolução clínica e tratamento.

Conheça os tipos de hepatite virais:

Hepatite A

A hepatite A é transmitida principalmente pela via fecal-oral, geralmente por meio da ingestão de água ou alimentos contaminados. Está intimamente relacionada às condições de saneamento básico e higiene.

Na maioria das pessoas, a doença apresenta evolução benigna e não se torna crônica.

A melhor forma de prevenção é a vacinação, associada à higiene das mãos, consumo de água tratada e adequada higienização dos alimentos.

A vacina contra hepatite A apresenta eficácia superior a 95% após o esquema completo e possui excelente perfil de segurança, sendo utilizada mundialmente há décadas.

Hepatite B

A hepatite B é uma das hepatites de maior importância clínica por seu potencial de cronificação e pelas complicações que pode causar ao longo dos anos.

O vírus é transmitido pelo contato com sangue e outros fluidos corporais infectados, podendo ocorrer durante relações sexuais desprotegidas, compartilhamento de agulhas e seringas, acidentes com material perfurocortante e transmissão da mãe para o bebê durante a gestação ou o parto.

Além dessas formas mais conhecidas, Bernardo Porto Maia chama atenção para situações frequentemente esquecidas pela população:

“Pouca gente sabe que o compartilhamento de objetos utilizados para o consumo de drogas inaladas, como canudos ou outros utensílios usados para aspirar cocaína, também pode representar risco para transmissão da hepatite B. Essas substâncias podem provocar pequenas lesões na mucosa nasal e deixar resíduos de sangue no material compartilhado, permitindo a transmissão do vírus entre usuários.”

Também existe risco no compartilhamento de escovas de dentes, lâminas de barbear, alicates de manicure, instrumentos para tatuagem e piercing sem adequada esterilização e qualquer objeto que possa entrar em contato com sangue.

A principal estratégia de prevenção continua sendo a vacinação.

A vacina contra hepatite B apresenta eficácia superior a 95% em pessoas imunocompetentes após o esquema completo, sendo considerada extremamente segura e uma das vacinas de maior impacto já desenvolvidas para prevenção de doenças infecciosas.

Além de prevenir a hepatite B, ela também impede o surgimento da hepatite D, já que esta depende obrigatoriamente da presença do vírus B.

Hepatite C

A hepatite C é transmitida predominantemente pelo contato com sangue contaminado.

Hoje, a maior parte das novas infecções está relacionada ao compartilhamento de agulhas e seringas entre usuários de drogas injetáveis, embora também possa ocorrer por procedimentos realizados sem adequada esterilização de materiais e, mais raramente, por transmissão sexual em situações específicas.

Diferentemente das hepatites A e B, ainda não existe vacina aprovada para prevenir a hepatite C.

Por outro lado, existem medidas eficazes para reduzir o risco de infecção, como:

  • não compartilhar seringas, agulhas ou objetos perfurocortantes;
  • utilizar materiais esterilizados em procedimentos invasivos;
  • realizar tatuagens e piercings apenas em estabelecimentos regulamentados;
  • utilizar preservativos em situações de maior risco;
  • realizar testagem quando houver exposição potencial ao vírus.

Uma das maiores conquistas da medicina nos últimos anos foi o desenvolvimento dos antivirais de ação direta.

“Atualmente, mais de 95% dos pacientes com hepatite C podem ser curados com tratamento oral, geralmente realizado entre oito e doze semanas. Quanto mais cedo o diagnóstico, maiores as chances de evitar complicações futuras”, destaca Bernardo Porto Maia.

Hepatite D

A hepatite D possui distribuição geográfica bastante restrita no Brasil, concentrando-se principalmente em algumas áreas da região Amazônica.

Ela apresenta uma característica única: só ocorre em pessoas infectadas pelo vírus da hepatite B, seja por coinfecção (quando ambos os vírus são adquiridos simultaneamente) ou por superinfecção (quando o vírus D infecta uma pessoa que já possui hepatite B crônica).

Por isso, a vacinação contra hepatite B também protege contra a hepatite D.

Hepatite E

A hepatite E é transmitida principalmente por água contaminada, de maneira semelhante à hepatite A.

No Brasil, apresenta baixa ocorrência e não possui importância epidemiológica comparável às hepatites A, B e C.

Apesar disso, reforça a importância do saneamento básico, da segurança alimentar e do consumo de água potável.

Quais são os sintomas das hepatites virais?

As hepatites podem permanecer silenciosas durante meses ou anos.

Quando surgem, os sintomas podem incluir:

  • fadiga;
  • febre;
  • mal-estar;
  • náuseas e vômitos;
  • dor abdominal;
  • urina escura;
  • fezes claras;
  • pele e olhos amarelados (icterícia).

A ausência desses sintomas, entretanto, não significa ausência da doença.

Como prevenir as hepatites virais?

A prevenção depende do tipo de vírus, mas algumas medidas são fundamentais:

  • manter a vacinação contra hepatites A e B atualizada;
  • utilizar preservativos nas relações sexuais;
  • nunca compartilhar agulhas, seringas ou objetos perfurocortantes;
  • evitar compartilhar canudos e outros utensílios utilizados para consumo de drogas inaladas;
  • realizar tatuagens, piercings e procedimentos estéticos apenas em locais que sigam normas rigorosas de biossegurança;
  • consumir água tratada;
  • higienizar adequadamente mãos e alimentos;
  • realizar testes sempre que houver fatores de risco ou indicação médica.

Informação, vacina e diagnóstico salvam vidas

As hepatites virais são doenças preveníveis e, em muitos casos, tratáveis ou até curáveis.

“Hoje temos vacinas altamente eficazes para hepatites A e B, testes rápidos amplamente disponíveis no Sistema Único de Saúde e tratamento curativo para praticamente todos os casos de hepatite C. O maior desafio ainda é identificar precocemente quem está infectado. Por isso, durante o Julho Amarelo, o convite é simples: procure uma unidade de saúde, atualize sua carteira vacinal e faça os testes quando indicados. Cuidar do fígado também é cuidar da vida”, finaliza Bernardo Porto Maia.

Veja também:

Clínica-escola PROMOVE oferece serviços gratuitos à população
Dia da Imunização: confira informações importantes sobre a data
Pediatra e docente de Medicina alerta sobre redução na procura pela vacina BCG