Nos últimos anos, a inteligência artificial deixou de ocupar apenas o campo da tecnologia e passou a fazer parte também da maneira como muitas pessoas procuram informações sobre saúde.

Chatbots podem explicar termos médicos, organizar dúvidas e ajudar o usuário a compreender melhor determinados assuntos. No entanto, o problema começa quando uma ferramenta de informação passa a ser tratada como responsável por confirmar um diagnóstico.

A psiquiatra da infância e adolescência Laura Trevizan, preceptora dos alunos de Medicina do Centro Universitário São Camilo , reforça que essas tecnologias podem funcionar como apoio, mas não substituem uma avaliação profissional.

“A internet oferece informações rápidas, enquanto a consulta médica garante compreensão personalizada.”

Dra. Laura Trevizan — psiquiatra da infância e adolescência
Informação não é o mesmo que diagnóstico

Uma ferramenta de IA pode organizar informações sobre sintomas e doenças. O diagnóstico, porém, depende de contexto clínico, histórico, exame, critérios específicos e avaliação realizada por profissionais habilitados.

Por que buscar sintomas na internet pode levar ao autodiagnóstico?

O acesso à informação sobre saúde mental aumentou e contribuiu para que diferentes condições se tornassem mais conhecidas pela população.

Um exemplo é o Transtorno do Espectro Autista (TEA). O Censo Demográfico 2022 identificou 2,4 milhões de pessoas que haviam recebido diagnóstico de autismo por um profissional de saúde, correspondendo a 1,2% da população brasileira.

O levantamento, divulgado pelo IBGE , investigou o tema pela primeira vez no Censo.

Um teste online não confirma um diagnóstico

Questionários disponíveis na internet podem ajudar uma pessoa a perceber características que deseja discutir com um profissional. Entretanto, seus resultados precisam ser interpretados com cautela e não substituem uma investigação clínica.

Segundo Trevizan, instrumentos baseados apenas em autorrelato podem produzir interpretações equivocadas e não captam, sozinhos, todas as nuances emocionais, sociais e comportamentais envolvidas em uma avaliação.

No caso do autismo, por exemplo, a investigação pode envolver histórico do desenvolvimento, entrevistas, observação clínica, informações de familiares ou outras pessoas próximas e, quando necessário, instrumentos específicos.

O que a inteligência artificial já consegue fazer na medicina?

Na medicina, inteligência artificial não significa apenas chatbot. Há sistemas desenvolvidos para analisar imagens, apoiar decisões clínicas, organizar informações de prontuários, auxiliar pesquisas e identificar padrões em grandes volumes de dados.

A Organização Mundial da Saúde reconhece que essas tecnologias apresentam potencial para apoiar diagnóstico, cuidado clínico, pesquisa, desenvolvimento de medicamentos e atividades de saúde pública.

Diagnóstico e triagem

Sistemas podem auxiliar profissionais na análise de dados e na identificação de padrões.

Imagens médicas

Algoritmos podem apoiar a leitura de exames em aplicações específicas e previamente avaliadas.

Organização da informação

Ferramentas podem resumir registros, estruturar dados e apoiar tarefas administrativas.

Ao mesmo tempo, bons resultados obtidos em estudos controlados não significam automaticamente que uma ferramenta apresentará o mesmo desempenho em qualquer hospital, paciente ou situação clínica.

Um exemplo mostra o potencial — e também a importância do contexto

Em pesquisa divulgada pela Microsoft, o sistema MAI-DxO, combinado a um modelo de linguagem, alcançou 80% de acerto em um conjunto de casos diagnósticos complexos. No mesmo experimento, médicos generalistas participantes obtiveram média de 20%.

O resultado é relevante para a pesquisa em IA, mas se refere a um ambiente experimental específico. Portanto, não significa que sistemas de inteligência artificial sejam, de forma geral, “quatro vezes melhores” do que médicos na prática clínica.

Por que a IA ainda precisa de supervisão humana na saúde?

Modelos generativos conseguem produzir respostas claras e convincentes. Entretanto, uma resposta bem escrita não significa necessariamente que a informação esteja correta.

A Organização Mundial da Saúde alerta que modelos de linguagem podem produzir informações falsas, imprecisas, incompletas ou enviesadas. Em saúde, esse problema ganha importância porque uma interpretação errada pode influenciar decisões relacionadas a sintomas, tratamentos ou procura por atendimento.

Contexto incompleto

Um chatbot conhece apenas as informações fornecidas pelo usuário e pode não perceber dados clínicos importantes que ficaram de fora.

Respostas plausíveis, mas incorretas

Sistemas generativos podem apresentar uma informação equivocada com linguagem aparentemente segura e convincente.

Privacidade

Informações pessoais e dados de saúde exigem atenção especial ao serem compartilhados em plataformas digitais.

Por isso, a OMS recomenda que sistemas de IA utilizados na saúde sejam avaliados quanto à segurança, eficácia, transparência e proteção dos pacientes.

Como usar chatbots de saúde de forma mais segura?

Para quem utiliza inteligência artificial como fonte de pesquisa, Trevizan recomenda encarar a ferramenta como um ponto de partida para compreender melhor determinado assunto, e não como uma conclusão sobre o próprio estado de saúde.

1. Use para organizar dúvidas

A ferramenta pode ajudar a entender termos e preparar perguntas que serão levadas a uma consulta.

2. Confira a fonte

Informações sobre saúde devem ser comparadas com fontes oficiais, sociedades científicas e serviços de saúde reconhecidos.

3. Leve a informação ao profissional

Um médico ou outro profissional habilitado pode interpretar os dados considerando história clínica, sintomas, exames e características individuais.

Evite decisões de saúde baseadas exclusivamente em uma resposta de IA

Iniciar, interromper ou alterar medicamentos, adiar atendimento ou considerar um diagnóstico confirmado apenas pela resposta de um chatbot pode trazer riscos.

Na saúde mental, essa cautela ganha importância adicional porque sintomas semelhantes podem estar relacionados a condições diferentes e precisam ser compreendidos dentro da história e do contexto de cada pessoa.

Tecnologia e cuidado não precisam estar em lados opostos

O crescimento da inteligência artificial na saúde não precisa ser compreendido como uma disputa entre tecnologia e profissionais.

Ferramentas digitais podem ajudar a organizar informações, ampliar acesso ao conhecimento e apoiar determinadas etapas do trabalho em saúde. Entretanto, seu uso precisa ocorrer com critérios de segurança, validação científica, proteção de dados e responsabilidade.

Essa discussão também esteve presente no 4º Fórum Saúde, realizado em Brasília em agosto de 2025 pela Esfera Brasil e pela EMS. O encontro reuniu representantes do poder público, especialistas e empresários para discutir inovação e desenvolvimento do setor de saúde.

Para o paciente, o princípio pode ser mais simples: uma resposta de inteligência artificial pode ajudar a formular perguntas, mas não conhece toda a sua história.

A tecnologia pode ampliar o acesso à informação e apoiar profissionais e pacientes. A avaliação clínica, porém, continua exigindo contexto, responsabilidade e compreensão individual.

Na prática, inteligência artificial e cuidado humano podem ser complementares — desde que cada um ocupe o papel adequado.