Em maio de 2026, estudantes do primeiro semestre do curso de Nutrição do Centro Universitário São Camilo participaram da Oficina dos Sabores, atividade que propôs uma imersão nos biomas brasileiros, por meio da gastronomia. O desafio consistiu em pesquisar ingredientes característicos de diferentes regiões do país e transformá-los em preparações inovadoras, preservando suas características culturais, nutricionais e sensoriais.

A proposta integrou a disciplina Fundamentos do Comportamento Alimentar e deu continuidade ao Café Regional, atividade anterioriomente realizada pelos mesmos grupos. Desta vez, os estudantes foram convidados a explorar a riqueza da biodiversidade brasileira e ampliar seu repertório alimentar por meio da elaboração de receitas autorais.

Ao todo, a Oficina dos Sabores reuniu 21 grupos de estudantes distribuídos entre os campi Ipiranga e Pompeia. Nessa edição, cada equipe ficou responsável por representar um dos seis biomas brasileiros Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pantanal e Pampa explorando ingredientes característicos de cada região em preparações culinárias diversificadas e repletas de sabores. Dessa forma, a atividade promoveu uma imersão na riqueza gastronômica e cultural do país, valorizando a biodiversidade presente em cada bioma.


No campus Pompeia, participaram nove grupos, que trabalharam ingredientes como maracujá, caju, açaí, mandioca, baru, pequi, erva-mate, pinhão e umbu. Por sua vez, no campus Ipiranga, os demais grupos desenvolveram receitas a partir de alimentos representativos dos biomas brasileiros, ampliando a diversidade de sabores, técnicas e experiências gastronômicas apresentadas durante a atividade. Assim, os estudantes puderam explorar diferentes possibilidades culinárias e valorizar a riqueza dos ingredientes nacionais.

Relação de biomas e ingredientes escolhidos pelos grupos

BiomaAlimentos
Mata AtlânticaBanana-da-terra e Jabuticaba
AmazôniaAçaí e Mandioca
CerradoPequi e Baru
PantanalMaracujá e Abóbora
CaatingaUmbu e Caju
PampaErva-mate e Pinhão

Para a realização da atividade, os estudantes pré-prepararam os pratos em casa e utilizaram os laboratórios do Centro Universitário São Camilo para as finalizações. Além disso, durante o processo, as Profas. Beatriz, Fernanda, Jurucê Borovac e Mariana Del Ben Mayer acompanharam alguns grupos, oferecendo orientações técnicas, enquanto os demais organizavam mesas temáticas representando cada bioma.

As mesas chamavam atenção pela diversidade de cores, aromas e apresentações criativas dos pratos. Dessa forma, entre receitas doces, salgadas e agridoce, os alunos buscaram valorizar ingredientes típicos brasileiros e explorar possibilidades pouco comuns no cotidiano alimentar. Ao mesmo tempo, a atividade incentivou a criatividade, o trabalho em equipe e a aplicação prática dos conhecimentos adquiridos ao longo do curso.

Experiência nos campi Ipiranga e Pompeia fortaleceu integração entre os estudantes

Além das descobertas gastronômicas, a atividade também proporcionou momentos de integração entre os alunos, fortalecendo o trabalho em equipe e o

contato prático com o laboratório de técnica dietética desde o início da graduação.

No campus Pompeia, os alunos destacaram o quanto a experiência prática contribuiu para o aprendizado coletivo e para o desenvolvimento da convivência em grupo.

“A experiência com a cozinha foi muito positiva, proporcionando trabalho em grupo, aprendizado de novas receitas e a oportunidade de caracterizar as salas com os biomas, algo que a estudante destacou como muito especial”

Aluno – Igor

Além disso, os estudantes ressaltaram que a atividade ajudou a aproximar teoria e prática logo no primeiro semestre do curso. Dessa maneira, a Oficina dos Sabores também se tornou uma oportunidade de estimular criatividade, organização e troca de experiências entre os futuros nutricionistas.

Mata Atlântica: banana-da-terra

Um dos grupos da Mata Atlântica escolheu a banana-da-terra como ingrediente principal. A partir disso, as estudantes desenvolveram preparações veganas como nhoque, ceviche e brigadeiro de banana-da-terra.

Segundo o grupo, o maior desafio foi justamente selecionar receitas criativas diante das inúmeras possibilidades gastronômicas do ingrediente. Além da proposta culinária, as estudantes destacaram a importância de compreender os gostos e preferências alimentares dos futuros pacientes, indo além das necessidades nutricionais.

Mata Atlântica: jabuticaba

A criatividade também apareceu nas receitas elaboradas com jabuticaba. Nesse contexto, o grupo responsável pelo ingrediente apresentou mostarda artesanal, chutney e bolo, fugindo das preparações mais tradicionais.

O estudante Luigi explicou que a intenção era mostrar novas possibilidades gastronômicas para uma fruta bastante conhecida pelos brasileiros.

“Todo mundo conhece a jabuticaba, mas normalmente ela aparece sempre da mesma forma. A gente quis explorar outras possibilidades”

Aluno- Luigi

Além disso, as receitas foram produzidas pelos próprios estudantes, desde o preparo da mostarda até as combinações utilizadas no chutney.

Amazônia: mandioca

Representando a Amazônia, um dos grupos escolheu a mandioca pela sua importância histórica e cultural na alimentação brasileira.

As receitas incluíram tacacá, farofa e palitos de mandioca, destacando a versatilidade do alimento em preparações doces e salgadas. Segundo o estudante Pedro, a atividade permitiu ampliar o repertório alimentar dos futuros nutricionistas.

“Quanto maior o repertório alimentar do profissional, maior a possibilidade de adaptação alimentar para o paciente”,

Aluno- Pedro

Além do aspecto nutricional, o grupo ressaltou a importância cultural da mandioca, alimento presente historicamente na culinária indígena brasileira.

Amazônia: açaí

Outro grupo amazônico decidiu apresentar o açaí de maneira diferente da tradicional encontrada em São Paulo. Dessa forma, as estudantes criaram brownie de açaí, molho agridoce e queijo coalho com açaí inspirado no consumo salgado típico da região Norte.

O grupo explicou que um dos principais desafios foi encontrar a polpa pura do alimento e fugir das versões ultraprocessadas normalmente associadas ao consumo do açaí.

Além disso, a experiência despertou reflexões sobre consumo alimentar e equilíbrio nutricional, já que o alimento costuma ser associado a complementos altamente calóricos.

Cerrado: pequi

No Cerrado, um dos grupos escolheu o pequi e apostou em preparações doces e salgadas.

Entre os pratos apresentados estavam arroz com pequi, pudim e um doce inspirado em brigadeiro. Ainda assim, as estudantes relataram que o maior desafio foi justamente desenvolver receitas doces utilizando um ingrediente normalmente associado à culinária salgada.

Além disso, o grupo destacou a importância de conhecer alimentos regionais para compreender melhor os hábitos alimentares dos futuros pacientes.

“Muitas pessoas nunca experimentaram pequi. Conhecer sabores diferentes também faz parte da formação”, comentou uma das estudantes.

Cerrado: baru

Outro grupo do Cerrado trabalhou com o baru, alimento ainda pouco conhecido em São Paulo.

As receitas incluíram arroz com baru, paçoca e pasta cremosa semelhante à pasta de amendoim. Durante a pesquisa, os estudantes aprofundaram o conhecimento sobre o bioma e descobriram características nutricionais importantes do ingrediente, como alto teor proteico, presença de gorduras boas e minerais como magnésio e zinco.

“O Cerrado é muito mais rico do que a gente imaginava. A pesquisa fez a gente enxergar isso”

Aluno – Henrique.

Além da questão nutricional, o grupo também discutiu a importância de considerar fatores culturais e socioeconômicos na futura prática clínica do nutricionista.

Pantanal: abóbora

Representando o Pantanal, um dos grupos escolheu a abóbora para desenvolver patê, nhoque e pudim.

Segundo os estudantes, o ingrediente possui forte presença cultural na culinária indígena, boliviana e paraguaia, referências muito presentes na região pantaneira. Dessa maneira, a proposta foi mostrar como um alimento considerado comum pode ganhar novas possibilidades gastronômicas.

As preparações surpreenderam os avaliadores pela apresentação e pela diversidade de sabores desenvolvidos a partir de um único ingrediente.

Pantanal: maracujá

Outro grupo do Pantanal trabalhou com o maracujá em preparações doces, salgadas e agridoce.

As estudantes desenvolveram bolo, geleia e farofa de maracujá, buscando demonstrar a versatilidade do ingrediente. Segundo o grupo, o desafio foi sair das preparações tradicionais e explorar novas combinações de sabores.

“O maracujá geralmente aparece em sobremesas. Aqui mostramos que ele também funciona muito bem em receitas salgadas”,

Aluna- Aline.

Durante a atividade, as estudantes destacaram os benefícios antioxidantes do alimento e a possibilidade de inseri-lo em diferentes refeições do cotidiano. Nesse sentido, o trabalho evidenciou como ingredientes tradicionais podem ser incorporados de forma criativa e nutritiva à alimentação diária.

Caatinga: umbu

Na representação da Caatinga, um dos grupos escolheu o umbu, fruta pouco conhecida em São Paulo.

As estudantes criaram receitas como molho de umbu e balas de gelatina utilizando o ingrediente. Marina, integrante do grupo, contou que mesmo já conhecendo a fruta, nunca havia explorado tantas possibilidades culinárias.

“Foi uma experiência muito interessante descobrir quantas receitas diferentes podem surgir a partir do umbu”, afirmou. (Marina, estudante)

Além disso, as dificuldade para encontrar o alimento na capital paulista também fez parte da experiência dos estudantes, reforçando o contato com ingredientes regionais pouco presentes no cotidiano urbano.

Caatinga: caju

Outro grupo da Caatinga escolheu o caju e desenvolveu geleia, vinagrete e torradas aromáticas feitas com o suco da fruta.

As estudantes destacaram que a proposta também buscou atender diferentes públicos, incluindo adaptações veganas e preparações voltadas para pessoas com seletividade alimentar. Além das características nutricionais, o grupo explorou diferentes texturas e sabores do alimento.

“Às vezes a pessoa não gosta do alimento puro, mas consegue consumir em outra preparação. Isso também faz parte do comportamento alimentar”, comentou uma das estudantes do grupo.

Pampa: erva-mate

No bioma Pampa, um dos grupos escolheu a erva-mate como ingrediente principal.

As estudantes desenvolveram farofa, bolo e gelatina utilizando a erva-mate de maneiras pouco convencionais. Entretanto, o grupo relatou que um dos maiores desafios foi adaptar o ingrediente para novas texturas sem perder suas características naturais.

Além disso, as estudantes destacaram o processo artesanal necessário para atingir a consistência ideal das preparações.

Pampa: pinhão

Outro grupo do Pampa trabalhou com o pinhão em receitas como arroz, pasta cremosa e bolo.

Os estudantes destacaram a versatilidade do ingrediente e sua importância cultural na região Sul do país. Além do valor nutricional, o grupo ressaltou a relação afetiva que muitos pacientes possuem com determinados alimentos.

“O alimento não é apenas valor nutricional. Ele também representa cultura, memória afetiva e identidade”. (Adriana, estudante)

As estudantes lembraram que o pinhão está presente em festas, reuniões familiares e tradições regionais, reforçando a conexão emocional existente na alimentação.

Formação humanizada desde o primeiro semestre

Durante a atividade, docentes e colaboradores do Centro Universitário São Camilo participaram como avaliadores, experimentando os preparos e analisando critérios como criatividade, apresentação, inovação, organização e sabor.

Para a Profa. Ma. Sonia Maria Pereira, responsável pela atividade, a Oficina dos Sabores vai muito além da culinária e representa uma importante ferramenta de compreensão do comportamento alimentar humano desde o início da graduação.

“A Oficina dos Sabores nasce da proposta de incentivar os estudantes compreenderem os biomas brasileiros, os ingredientes regionais e, principalmente, a relação das pessoas com a comida. Eles observam como cada indivíduo reage aos sabores, às texturas, às escolhas alimentares e até à seletividade alimentar”,

Profa. Ma. Sonia Maria Pereira

Segundo a docente, as preparações precisavam manter a identidade do ingrediente escolhido, mesmo em receitas inovadoras.

“Se o grupo escolheu pequi, o sabor do pequi precisava continuar presente. A proposta era justamente criar receitas diferentes sem apagar a identidade do alimento”

Profa. Ma. Sonia Maria Pereira

Esta atividade também reforçou a importância da alimentação afetiva como prática na formação em Nutrição. Ao longo das apresentações, os estudantes perceberam que os alimentos carregam histórias, tradições familiares, preferências culturais e experiências emocionais que influenciam diretamente a relação das pessoas com a comida.

Segundo a Profa. Sonia Pereira, compreender essa conexão entre alimentação e comportamento é essencial na formação dos futuros nutricionistas. Assim, os estudantes começam a entender que alimentação não é apenas nutriente. Existe memória afetiva, cultura, preferência alimentar e comportamento. Portanto, tudo isso influencia diretamente na forma como o paciente se relaciona com a comida, afirmou.

Dessa maneira, a Oficina dos Sabores ampliou o olhar dos futuros nutricionistas para além dos nutrientes, valorizando também os aspectos culturais e afetivos antropológicos e comportamentais presentes na alimentação.

Observação do comportamento alimentar na prática

Outro ponto destacado pela docente foi a importância de estimular os estudantes a observarem o comportamento das pessoas diante dos alimentos. Destaca-se que durante a oficina, eles observam a primeira escolha dos participantes diante das 3 preparações oferecidas, quais sabores de preferência, seletividade e aversões nas escolhas alimentares, o que experimentam ou deixam de experimentar. Dessa forma, isso ajuda o aluno a compreender, desde cedo, como funciona o comportamento alimentar humano, completou.

Assim, ao unir ciência, gastronomia, cultura e comportamento alimentar, a Oficina dos Sabores reforçou a riqueza dos biomas brasileiros e mostrou como a alimentação pode ser uma ferramenta de cuidado, identidade e conexão cultural.

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