
Durante muito tempo, falar sobre mudanças climáticas significava discutir principalmente seus impactos ambientais. Hoje, porém, o tema também ocupa espaço crescente no planejamento em saúde.
Ondas de calor, enchentes, secas, incêndios e chuvas intensas podem afetar diretamente a população e também comprometer o funcionamento dos serviços de saúde.
Esse cenário ajuda a entender por que o Sistema Único de Saúde passou a incorporar riscos climáticos de maneira mais estruturada ao planejamento. Em 2026, essa preparação ganhou um desafio adicional: a intensificação do El Niño 2026–2027.
O fenômeno pode alterar padrões de chuva e temperatura, favorecendo ondas de calor, secas, incêndios, chuvas intensas e inundações em diferentes regiões. Esses eventos podem aumentar riscos à saúde e pressionar a infraestrutura do SUS.
Mudanças climáticas e El Niño não são a mesma coisa
Embora apareçam frequentemente na mesma discussão, El Niño e mudanças climáticas são fenômenos diferentes.
É um fenômeno natural associado ao aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Ele altera temporariamente padrões de chuva, temperatura e circulação atmosférica em diferentes partes do mundo.
Referem-se a alterações de longo prazo no sistema climático. O aumento da temperatura média global modifica o contexto em que fenômenos naturais e eventos extremos acontecem.
Portanto, o El Niño não é causado pelas mudanças climáticas. Ao mesmo tempo, seus impactos acontecem em um planeta que já apresenta temperaturas médias mais elevadas e maior preocupação com extremos climáticos.
El Niño foi confirmado e pode alcançar intensidade muito forte
As condições de El Niño foram confirmadas em junho de 2026. O Boletim nº 3 do Painel El Niño 2026–2027 aponta probabilidade superior a 90% de ocorrência de um evento muito forte no trimestre setembro–outubro–novembro.
Os modelos também indicam permanência do fenômeno pelo menos até o início de 2027.
Para acompanhar o monitoramento oficial, consulte o Painel El Niño 2026–2027 .
Como clima e eventos extremos podem afetar a saúde?
A relação entre clima e saúde acontece de várias maneiras. Alguns impactos são imediatos, enquanto outros surgem depois que o evento extremo já terminou.
Pode provocar desidratação, estresse térmico e agravamento de condições cardiovasculares, respiratórias e metabólicas.
Podem causar ferimentos, comprometer água e saneamento, dificultar deslocamentos e aumentar a exposição a determinados agentes infecciosos.
Podem reduzir a disponibilidade de água, prejudicar a qualidade do ar e aumentar a vulnerabilidade de comunidades.
A piora da qualidade do ar pode agravar problemas respiratórios e cardiovasculares.
Mudanças em temperatura e chuva podem alterar condições ambientais relacionadas à circulação de mosquitos e outros vetores.
Desastres, perdas materiais, deslocamentos e insegurança podem gerar impactos psicológicos e sociais.
A Organização Mundial da Saúde destaca o calor extremo como um importante risco ambiental e ocupacional, especialmente para pessoas com condições preexistentes.
Os impactos não dependem apenas do fenômeno climático. Condições de moradia, saneamento, infraestrutura, renda, idade e acesso aos serviços de saúde também influenciam o risco.
Como o SUS está se preparando para o El Niño 2026–2027?
Em agosto de 2026, o Ministério da Saúde apresentou aos secretários estaduais o Plano de Preparação e Resposta a Emergências em Saúde Pública associadas ao El Niño 2026–2027.
A lógica é antecipar riscos e organizar a rede antes que uma situação extrema produza impactos maiores sobre a população e sobre os próprios serviços.
Serviços e gestores precisam identificar vulnerabilidades e estabelecer procedimentos antes de uma emergência.
Hospitais e unidades precisam prever como manter serviços essenciais diante de interrupções de abastecimento.
A continuidade da assistência depende da preservação de estoques, imunobiológicos e materiais essenciais.
Bases regionais ampliam a capacidade de deslocamento de equipes e apoio a estados e municípios em emergências.
Informação climática também passou a fazer parte da vigilância em saúde
Os Centros de Informação em Saúde e Clima (CISC) integram dados climáticos, epidemiológicos, demográficos e socioeconômicos para apoiar alertas e orientar a preparação da rede.
Porto Alegre integra uma rede nacional de oito centros previstos em diferentes regiões do país.
Essa integração permite que previsões meteorológicas sejam interpretadas junto a dados de saúde e características do território, ajudando a antecipar riscos e orientar ações preventivas.
Por que o Sudeste merece atenção neste ciclo do El Niño?
Os impactos do El Niño não são iguais em todo o Brasil. Mesmo dentro de uma mesma região, podem existir diferenças importantes entre estados e períodos.
No Sudeste, calor e temporais estão entre os principais riscos considerados pelo SUS
O Ministério da Saúde destaca para a região a possibilidade de temperaturas acima da média, ondas de calor e temporais em períodos específicos.
Isso exige preparação tanto para os efeitos diretos do calor quanto para situações relacionadas a chuvas intensas, alagamentos, interrupções de serviços e aumento de determinadas doenças.
Em setembro de 2026, o Rio de Janeiro passou a contar com uma base regional da Força Nacional do SUS , com atuação de referência para os estados do Sudeste.
A estrutura foi criada para reduzir o tempo de resposta e ampliar a articulação entre União, estados e municípios em emergências de saúde pública.
É importante evitar generalizações: El Niño não significa que todas as cidades do Sudeste terão exatamente o mesmo padrão de chuva ou temperatura. As previsões precisam ser atualizadas continuamente e interpretadas em escala regional e local.
Os riscos climáticos não são iguais para todas as pessoas
Uma mesma onda de calor ou enchente pode produzir efeitos muito diferentes dependendo das características de cada pessoa e do território onde ela vive.
Podem apresentar maior dificuldade para lidar com temperaturas extremas e desidratação.
Condições cardiovasculares, respiratórias e metabólicas podem ser agravadas pelo calor e pela piora da qualidade do ar.
Podem necessitar de atenção especial diante de condições ambientais extremas.
Atividades realizadas ao ar livre ou em ambientes muito quentes podem aumentar o risco de estresse térmico.
Moradia precária, risco de alagamento e falta de saneamento podem ampliar os impactos.
Barreiras de deslocamento, renda e infraestrutura podem dificultar prevenção e atendimento.
Por esse motivo, a Atenção Primária tem papel importante na identificação de pessoas mais vulneráveis, na comunicação de riscos e na organização do cuidado nos territórios.
O que esse cenário muda para os profissionais de saúde?
Incorporar riscos climáticos ao planejamento em saúde não significa que médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionistas, farmacêuticos e outros profissionais precisem se tornar especialistas em meteorologia.
Significa reconhecer que fatores ambientais e territoriais também podem influenciar riscos, necessidades de cuidado e funcionamento dos serviços.
Identificar rapidamente sinais relacionados ao calor, desidratação, fumaça e outras exposições ambientais.
Entender onde estão populações e serviços mais vulneráveis ajuda a organizar prevenção e resposta.
Emergências podem exigir adaptação diante de falta de energia, água, insumos ou dificuldades de deslocamento.
Vigilância, atenção primária, hospitais, gestão e diferentes categorias profissionais precisam compartilhar informações e decisões.
A preparação profissional envolve conhecimento técnico, raciocínio crítico, comunicação, prevenção e capacidade de atuar em situações complexas.
A preparação para o El Niño 2026–2027 faz parte de um movimento mais amplo de adaptação do sistema de saúde às mudanças climáticas.
Um plano de longo prazo para tornar o SUS mais resiliente
O Plano Setorial de Adaptação à Mudança do Clima na Área da Saúde reúne 27 objetivos e 93 metas, com horizonte de execução até 2035.
As ações abrangem vigilância, atenção à saúde, promoção e educação, ciência, tecnologia, infraestrutura, força de trabalho, logística e gestão da informação.