Você está navegando pelas redes sociais quando encontra um suposto profissional de saúde fazendo uma recomendação. Em outro vídeo, uma personalidade conhecida apresenta uma solução aparentemente simples para um problema que preocupa milhares de pessoas.

Tudo parece convincente. No entanto, há uma possibilidade que merece atenção: essas pessoas podem nunca ter dito aquilo ou, em alguns casos, podem nem sequer existir.

Com o avanço da inteligência artificial, a desinformação em saúde nas redes sociais ganhou novas formas. Gurus fictícios, falsos profissionais e deepfakes podem conferir aparência de autoridade a informações sem respaldo científico.

Além disso, o problema atravessa diferentes campos do cuidado. Falsas recomendações podem envolver medicamentos, suplementos, alimentação, diagnósticos, tratamentos e saúde mental.

Como identificar desinformação em saúde?

Mais importante do que tentar descobrir se um vídeo “parece falso” é verificar quem está por trás da informação, confirmar credenciais profissionais, consultar fontes confiáveis e desconfiar de promessas de cura rápida ou garantida.

Quando o especialista da rede social não existe

Em 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) alertou para conteúdos de saúde divulgados por personagens totalmente fictícios criados com inteligência artificial.

Em um dos casos identificados, um perfil com mais de 600 mil seguidores utilizava a imagem de uma senhora indígena criada por IA para compartilhar receitas acompanhadas de promessas de recuperação da saúde.

Segundo a Anvisa, esse tipo de orientação pode criar uma falsa sensação de segurança, retardar a procura por acompanhamento profissional, atrasar diagnósticos e agravar problemas de saúde.

Seguidores não comprovam conhecimento

Um perfil muito popular pode divulgar conteúdo sem autoria confiável ou respaldo científico.

Aparência não comprova identidade

Pessoas, cenários, vozes e até supostos especialistas podem ser gerados artificialmente.

Termos técnicos não garantem evidência

Uma explicação convincente pode continuar sendo incorreta, incompleta ou enganosa.

Em resumo: quantidade de seguidores, aparência profissional e segurança ao falar não substituem a verificação da identidade, das credenciais e das evidências apresentadas.

Deepfake: quando uma pessoa real parece dizer algo que nunca disse

Há também situações em que a pessoa realmente existe, mas nunca gravou aquele conteúdo.

Os chamados deepfakes utilizam inteligência artificial para manipular ou sintetizar imagem e voz. Com isso, alguém pode parecer recomendar um medicamento, suplemento ou tratamento sem jamais ter feito aquela indicação.

Atenção

Reconhecer o rosto não significa que o conteúdo seja verdadeiro

A Anvisa já alertou para vídeos manipulados que utilizam imagem e voz de pessoas conhecidas para promover medicamentos e suplementos. Também existem anúncios protagonizados por supostos profissionais de saúde gerados artificialmente.

Além disso, o problema não se limita aos deepfakes. O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP) já alertou para anúncios em que atores se apresentam como médicos para promover produtos. Em alguns casos, nome e CRM de profissionais verdadeiros foram utilizados indevidamente.

Por isso, encontrar um nome ou um número de CRM em uma publicação não é suficiente. O ideal é confirmar as informações profissionais diretamente nos canais oficiais do conselho da categoria.

Como saber se uma recomendação de saúde merece confiança?

Um jaleco, um consultório ao fundo ou uma explicação repleta de termos técnicos podem ser reproduzidos artificialmente. Por isso, tentar descobrir se um vídeo é verdadeiro apenas pela aparência já não é suficiente.

Algumas manipulações ainda apresentam movimentos pouco naturais dos lábios, voz artificial ou inconsistências em mãos e objetos. Entretanto, conforme a tecnologia evolui, esses sinais tendem a ficar menos evidentes.

Antes de confiar, verifique:

  • quem publicou originalmente o conteúdo;
  • se a identidade do profissional pode ser confirmada;
  • se o registro profissional existe no conselho correspondente;
  • se a mesma orientação aparece em fontes oficiais ou independentes;
  • se há referência a evidências, estudos ou órgãos reconhecidos;
  • se uma celebridade realmente publicou aquele conteúdo em seu perfil oficial.

Mais importante do que procurar defeitos na imagem é descobrir quem está por trás da informação e quais evidências sustentam aquilo que está sendo afirmado.

Essa discussão também alcança o ambiente acadêmico. Para aprofundar o tema, confira Impactos da Inteligência Artificial na Docência Universitária .

Sinais de alerta: quando desconfiar de um conteúdo de saúde?

Nem sempre é possível identificar uma manipulação apenas olhando para um vídeo. Ainda assim, alguns sinais indicam que é melhor verificar antes de acreditar, comprar ou compartilhar.

Cura rápida ou garantida

Promessas de resolver condições complexas em poucos dias merecem atenção.

Uma solução para muitos problemas

Desconfie quando o mesmo medicamento, suplemento ou alimento é apresentado como resposta para diversas doenças.

Abandono de tratamento

Conteúdos que orientam interromper ou substituir tratamentos sem avaliação individual são um sinal importante de alerta.

Credenciais difíceis de confirmar

Pesquise a identidade e o registro profissional de quem apresenta a recomendação.

Celebridade promovendo um produto

Confira se o conteúdo aparece nos canais oficiais da pessoa.

Imagem ou voz estranhas

Sincronização labial, mãos, expressões e voz podem apresentar inconsistências.

Pressão para comprar

Urgência, medo e “última oportunidade” são estratégias comuns em conteúdos enganosos.

“Segredo que ninguém conta”

Frases desse tipo costumam ser utilizadas para aumentar a sensação de exclusividade e desconfiança em relação a fontes reconhecidas.

Um desses sinais, isoladamente, não prova que o conteúdo seja falso. No entanto, a presença de vários deles é motivo suficiente para investigar antes de tomar uma decisão relacionada à saúde.

Promessas extraordinárias pedem atenção redobrada

Além de verificar quem está falando, é importante observar o que está sendo prometido.

Expressões como “cura garantida”, “resultado em poucos dias” e “segredo que os médicos não contam”, principalmente quando associadas à venda de um produto, são motivos para buscar outras fontes antes de tomar qualquer decisão.

Medicamentos

Uma publicação nas redes sociais não deve servir de justificativa para iniciar, interromper, substituir ou modificar um tratamento por conta própria.

Suplementos e produtos “naturais”

Natural não significa automaticamente seguro. Substâncias podem apresentar contraindicações, efeitos adversos ou interações.

Nutrição

Alimentos podem fazer parte de uma alimentação adequada, mas isso não significa que possam substituir tratamento para uma doença.

Saúde mental

Desconfie de conteúdos que transformam sofrimento emocional em diagnósticos instantâneos ou oferecem a mesma solução para todas as pessoas.

Antes de acreditar, interrompa o impulso e verifique

Conteúdos enganosos costumam explorar emoções como medo, surpresa, esperança e urgência. Por isso, quando uma publicação fizer você querer comprar, compartilhar ou mudar imediatamente algum comportamento relacionado à saúde, vale interromper o impulso.

01
Pare

Não compre, compartilhe ou altere um tratamento imediatamente.

02
Verifique a origem

Descubra quem publicou e de onde veio a informação.

03
Confirme a identidade

Consulte registros profissionais e perfis oficiais.

04
Compare fontes

Procure a orientação em órgãos oficiais e fontes independentes confiáveis.

Quando houver medicamentos ou produtos sujeitos à vigilância sanitária, consulte também os canais oficiais dos órgãos responsáveis. Além disso, se o conteúdo envolver tratamento, alimentação, uso de medicamentos ou saúde mental, procure orientação de um profissional habilitado na área correspondente.

Também é importante evitar ampliar o alcance de uma informação duvidosa. Encaminhar um vídeo “só para avisar” pode, involuntariamente, ajudar a disseminá-lo.

Informação confiável também é uma forma de cuidado

A inteligência artificial, por si só, não transforma uma informação em desinformação. Pelo contrário, a tecnologia pode contribuir para diferentes áreas da saúde quando utilizada de forma responsável.

O problema surge quando ela é utilizada para fabricar autoridade, esconder a verdadeira origem de uma mensagem ou atribuir recomendações a profissionais que nunca as fizeram.

Por isso, seja diante de uma orientação sobre medicamentos, alimentação, saúde mental ou tratamentos médicos, duas perguntas simples podem ajudar:

Antes de confiar

Quem realmente está por trás dessa recomendação?

E quais evidências sustentam aquilo que está sendo afirmado?

Esse olhar crítico também faz parte das discussões sobre formação em saúde diante das transformações provocadas pelas novas tecnologias.

Em resumo, verificar antes de acreditar e compartilhar é uma atitude de cuidado. Quando o assunto é saúde, os efeitos de uma informação falsa podem ultrapassar a tela e influenciar decisões reais.